Numa reunião de equipe em julho, num escritório de São Bernardo, uma analista fez a pergunta que resume o problema inteiro do setor: “depois que a gente resolver setembro, volta ao normal?”
O sócio disse que sim. Ele estava errado.
Setembro de 2026 não é a prova final da reforma. É a primeira chamada. O que existe pela frente é um calendário de transição da reforma tributária que vai de 2026 a 2033 — sete anos de datas com efeito prático sobre a mesma carteira, com decisões que voltam, alíquotas que sobem por etapa e dois sistemas convivendo no meio do caminho.
Quem tratar setembro como evento vai refazer o mesmo trabalho do zero a cada período. Quem tratar como o primeiro item de uma esteira já mapeada vai cobrar por cada revisão.
2026: o ano em que a conta é pequena e o trabalho é grande
Este ano é o ano de teste, e o teste é literal.
Em 2026, a CBS aparece com alíquota de 0,9% e o IBS com 0,1%. É um piloto: alíquotas simbólicas, criadas para que empresas, sistemas e fiscos aprendam a operar o novo modelo antes que ele custe dinheiro de verdade.
O impacto financeiro é irrelevante. O impacto operacional, não.
Este é o ano de acertar cadastro, classificação de operações, emissão de documento fiscal com os novos campos e leitura correta do que o sistema está calculando. Erro cometido agora custa quase nada em tributo — e custa muito em 2027, quando a mesma parametrização errada passa a incidir sobre uma alíquota quase dez vezes maior.
É o único momento da transição em que você pode errar barato. Vale usá-lo.
Setembro de 2026: o marco que fecha e não reabre
A Resolução CGSN nº 186, de 9 de abril de 2026, abriu a janela: de 1º a 30 de setembro de 2026, cada empresa optante pelo Simples Nacional decide se passa a recolher IBS e CBS pelo regime regular, por fora do DAS.
A opção é feita no Portal do Simples Nacional e produz efeito de janeiro a junho de 2027.
Há uma válvula: quem optar pode cancelar até o último dia de novembro de 2026. Depois disso, é irretratável para o período. São dois meses de conferência — e, para o escritório que fez a triagem correndo, dois meses para consertar o que foi decidido no aperto.
Repare no desenho. A decisão é tomada em setembro, pode ser desfeita até novembro, e só começa a produzir efeito em janeiro. Três datas, três providências diferentes, todas dentro do mesmo trimestre. Já aqui, sem sair de 2026, a transição deixa de ser um evento e vira agenda.
2027: quando a decisão de setembro vira dinheiro
Em 2027 a conta aparece.
IBS e CBS somados chegam a 8,8%, com a extinção do PIS e da Cofins. A CBS entra na alíquota de referência reduzida em 0,1 ponto e o IBS permanece simbólico nesse 0,1% — 0,05% estadual e 0,05% municipal. Somados, voltam à referência. O modelo novo passa a existir de fato do lado federal, enquanto o lado estadual e municipal ainda espera.
É nesse momento que a decisão tomada em setembro produz consequência visível. O comprador no Lucro Real que se credita de 8,8% de um fornecedor no regime regular, e de uma fração bem menor de um fornecedor que manteve IBS e CBS dentro do DAS, vai tratar os dois de forma diferente. Não por preferência — por planilha.
E aqui está a parte que quase nenhum escritório internalizou: a opção é semestral. O efeito de setembro cobre janeiro a junho de 2027. O período seguinte é outra decisão, com outra janela, sobre uma empresa que a essa altura já tem seis meses de histórico real no novo modelo.
Ou seja: a análise que você fizer agora, no escuro, com premissas estimadas, vai poder ser refeita em 2027 com dados observados. Cliente que optou e viu o crédito destravar vendas pode confirmar. Cliente que optou e só ganhou obrigação acessória pode voltar atrás. Cada retorno da janela é uma nova análise por CNPJ — e uma nova conversa de valor com o cliente.
Decisão que se repete não é custo. É recorrência.
2029 a 2032: quatro anos com dois sistemas na mesma mesa
Depois de 2027 vem o trecho mais desconfortável do calendário da transição da reforma tributária, e é o que menos aparece nas conversas.
Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS são reduzidos em 10% ao ano. Não desaparecem de uma vez: encolhem por etapa, enquanto o IBS sobe para ocupar o espaço.
Na prática, são quatro exercícios em que a mesma empresa apura pelo sistema velho e pelo sistema novo ao mesmo tempo, com pesos que mudam todo ano. Todo ano muda a proporção. Todo ano muda o comparativo de carga. Todo ano muda a decisão de preço, de crédito e de estrutura de fornecimento.
Quatro anos, quatro revisões. É aí que o escritório que tem processo se separa do escritório que tem boa vontade — porque boa vontade não sobrevive a quatro rodadas seguidas do mesmo trabalho refeito na raça.
2033: o modelo pleno e o limite honesto desta previsão
Em 2033, o modelo entra em regime pleno: IVA dual, com alíquota de referência estimada em torno de 26,5%.
Agora a parte que preciso dizer com todas as letras, porque o resto do artigo perde valor sem ela.
Boa parte deste calendário ainda depende de regulamentação. As alíquotas de referência são referências — podem ser revistas por lei e pelos entes federados ao longo do caminho, e a estimativa de 26,5% para 2033 é justamente isso: uma estimativa de cenário construída hoje, com as regras de hoje, para um ano que está a sete anos daqui.
Quem promete precisão sobre 2033 está vendendo bola de cristal. Eu não vou.
O que sustenta o argumento não é a exatidão do número lá na frente. É o formato do caminho: datado, escalonado, com decisões que voltam. Esse formato já está na lei. O valor do escritório não está em acertar a alíquota de 2033 — está em ter processo para reagir a cada revisão em uma semana, e não em três meses.
Mapear a carteira uma vez é radicalmente diferente de recomeçar
Faça a conta do trabalho, não do tributo.
Toda vez que um marco chega, o escritório precisa responder a mesma sequência: quais clientes são afetados, quais têm decisão relevante, quais saem da conta sem análise. Se essa triagem não estiver registrada, ela é refeita inteira a cada período — carteira de 140 clientes, do zero, na base do “acho que esse aqui é B2B”.
Feita uma vez e mantida, ela vira ativo. Você já sabe quem é do Simples, quem vende para PJ que aproveita crédito, quem optou, quem cancelou, quem ficou. No próximo marco você não recomeça: você atualiza. O tempo de resposta cai de semanas para dias, e o custo marginal de cada revisão desaba.
O que muda na relação com o cliente é ainda mais importante que o tempo economizado. Reagir ao marco é ligar depois que o cliente perguntou. Antecipar o marco é ligar antes — com a análise pronta, a recomendação escrita e a data do próximo passo já marcada.
O contador reclama que o cliente não valoriza o trabalho técnico. O empresário reclama que o contador só aparece quando o problema já estourou. E os dois têm razão — porque o trabalho técnico costuma acontecer em silêncio, no prazo, sem nunca ser apresentado como decisão. Antecipar o marco é o que torna esse trabalho visível.
Uma esteira de marcos datados, com uma revisão entregue em cada um, é exatamente o oposto de custo afundado: é agenda comercial com data marcada até 2033.
Sete anos de agenda cheia ou sete anos de graça
Aqui está o ponto de posicionamento, sem rodeio.
A transição vai acontecer do mesmo jeito para todo mundo. A diferença é o que o escritório faz com ela.
Quem trata a reforma como obrigação vai atravessar sete anos de mudança — parametrização, reapuração, dois sistemas simultâneos, decisão semestral por CNPJ — sem cobrar um centavo a mais por nada disso. Vai absorver o custo, trabalhar mais, e continuar sendo comparado por preço com o escritório da esquina. Conformidade virou commodity, e cumprir prazo em silêncio nunca subiu ninguém na Pirâmide de Valor.
Quem organiza a transição como serviço tem o contrário: sete anos de motivo legítimo para conversar com cada cliente, com entregável, laudo assinado e honorário destacado. Não é upsell inventado. É trabalho que vai existir de qualquer forma, sendo entregue como decisão em vez de sumir dentro da mensalidade.
Essa é a fronteira entre o contador digitador e o consultor de confiança — e ela não se atravessa com discurso. Atravessa-se com uma lista de clientes, um calendário e a disciplina de cumprir os dois.
Setembro é a primeira data. Faltam quase sete anos delas.
Mapeie a carteira uma vez e revise a cada marco. O Enquadria lê a sua carteira inteira e devolve o mapa em minutos — quem precisa decidir agora, quem pode esperar e quem sai da conta. É grátis e não pede cartão: app.enquadria.com.br
Leitura relacionada: A Pirâmide de Valor: por que o contador que só entrega obrigação briga por preço
Este conteúdo é educativo e não substitui a análise do caso concreto. A apuração e a responsabilidade técnica são do profissional que assina. Base normativa: Resolução CGSN nº 186/2026 e Lei Complementar nº 214/2025.